Diferenças entre deglutição atípica e adaptada

Alterações na deglutição

 

             A deglutição é o ato de engolir alimentos. É um processo complexo que envolve os  músculos da respiração e do trato gastrointestinal, e alguns nervos cranianos. O objetivo da deglutição é o transporte do bolo alimentar para o estômago e também a limpeza do trato respiratório.

             A deglutição começa na vida fetal estando presente desde a oitava semana de gestação, sendo uma ação automática, comandada pelo tronco cerebral. É uma função vital pois é necessária para garantir a sobrevivência do indivíduo.

             As crianças deglutem menos que os adultos. Sua média é de 600 a 1000 vezes por dia, enquanto os adultos deglutem entre 2400 a 2600 vezes. Não há concordância sobre estes valores, variando de autor para autor. Deglutimos menos à noite e mais ao falar e mastigar por serem funções que necessitam de maior produção de saliva. Produzimos, em média, um a um litro e meio de saliva por dia. Os mais idosos tem menos saliva, deglutindo menos vezes.

      Apesar do processo ser contínuo, ele é dividido em fases, para ser melhor compreendido. A primeira é a fase oral preparatória, momento em que preparamos o alimento mordendo-o e mastigando-o para que o mesmo possa ser transformado em um bolo homogêneo, facilitando a deglutição. A segunda fase é a oral, onde após ter sido preparado, o alimento será posicionado sobre a língua que se acoplará ao palato duro, iniciando um movimento ondulatório de frente para trás para levar o bolo para o fundo da boca. Quando o alimento, em conjunto com o dorso da língua, toca os pilares anteriores, desencadeia-se o reflexo de deglutição propriamente dito. Neste momento inicia-se a terceira fase da deglutição, que é a orofaringea.   O palato mole se fecha, evitando a passagem do bolo para a nasofaringe. A parede posterior da faringe vem para a frente espremendo o bolo contra o dorso da língua. O alimento não poderá subir, uma vez que o palato mole está fechado, e nem retornar para a boca, uma vez que o dorso da língua está impedindo a passagem para a cavidade oral.

Portanto, o alimento terá que descer. Todas estas ações são necessárias para que não haja passagem do bolo para a via aérea. Neste instante, haverá a elevação da laringe facilitando este fechamento, que será concomitante à abertura do músculo cricofaríngeo para que o alimento possa entrar no esôfago. Esta passagem do bolo, da faringe para o esôfago, dá inicio à última fase, que é a esofágica. Esta fase envolve contrações musculares que fazem a propulsão do bolo através do esfíncter esofágico superior até o estômago.

             As alterações da deglutição mais freqüentes são: interposição lingual, contração da musculatura periorbicular,  contração de mentalis, sem contração do masseter, interposição do lábio inferior, movimento de cabeça, e ruído. Todas estas características são  consideradas como atipias quando ocorrem enquanto o sujeito deglute. Encontrar resíduos na cavidade oral, após deglutir, também tem sido descrito como uma forma de atipia.   Essas alterações podem resultar numa deglutição adaptada ou uma deglutição atípica.

             Na deglutição adaptada a alteração encontrada é conseqüência de algum outro problema existente, como alteração estrutural (ex: má oclusão) ou respiração bucal. A língua se adaptou à forma da cavidade oral  ou se adaptou às  características das funções existentes, como no caso da respiração bucal, situação na qual torna-se praticamente impossível deglutir de maneira correta, já que a boca fica permanentemente aberta para viabilizar a respiração. Neste caso, será necessário um acompanhamento interdisciplinar para melhora das condições de deglutições.

             No entanto, a deglutição atípica corresponde à movimentação inadequada da língua e/ou de outras estruturas que participam do ato de deglutir, durante a fase oral da deglutição, sem que haja nenhuma alteração, de forma, na cavidade oral. Seria, portanto, apenas uma alteração da função de deglutir, não sendo necessário tratamento dentário para a correção do posicionamento dos dentes. Na atipia verdadeira, somente com o trabalho fonoaudiológico, já poderíamos criar a possibilidade de modificação do modo de deglutir, pois a forma, isto é, as estruturas responsáveis pela função estariam adequadas, o que permitiria boas condições de deglutição. Em geral, estas atipias ocorrem por problemas de postura inadequada da cabeça, por alteração do tônus, da mobilidade ou da propriocepção dos órgãos fonoarticulatórios: língua, lábios, bochechas, e palato mole. A deglutição atípica também pode ser denominada imatura ou infantil e é considerada normal até os quatro anos de idade.

 

 

Bibliografia:

 

Marchesan IQ. Fundamentos em fonoaudiologia: aspectos clínicos da motricidade oral. Guanabara Koogan, 2005.

 

Medeiros AMC e Medeiros M. Motricidade orofacial — inter-relação entre fonoaudiologia e odontologia. Lovise, 2006.